Resolvi contar a vocês minha experiência pessoal dentro da Dança do Ventre. Porque não estou sozinha, mas no começo era assim que me sentia, uma solitária.

A dança me dá a possibidade de me expressar livremente e isto é maravilhoso para uma pessoa que sempre teve que manter o controle. Hoje sei que nunca o tive, a dança me ensinou isto. Preciso estar aberta à música e as possibilidades que ela trás e precisei aprender a ouvir quem estava ali para me ajudar, para me ensinar. É difícil você ficar satisfeita com o que faz. A gente sempre quer mais e mais e isto tem os seus dois lados: é bom porque não nos deixa estacionar, vamos adiante, conseqüentemente aprendemos mais, crescemos. E é ruim porque como nunca estamos satisfeitas, ficamos presas pela pressão imposta por nós mesmas e assim o relaxamento ao dançar passa longe, fica uma dança sem alma, sem um toque especial, sem um dar de si mesmo. - E isso é preciso para atingir o outro.

Mesmo que você pense não ter nada de especial, você tem.. Mas é preciso respirar, relaxar, ter prazer, ser livre de autocrítica enquanto dança. A autocrítica é importante quando se estuda, mas no momento em que a dança acontece ela só atrapalha o fluxo e quebra o canal de expressão entre você e quem te assiste. Concentre-se em você sem se esquecer do outro. Se você sente que não é bem vinda em um ambiente, olhe em volta, tem sempre alguém amando sua dança. Dance então para aquela pessoa, e se não há ninguém, dance para você mesma. Lembre-se, entretanto, que o "não ser bem vinda" é uma suposição sua que pode ser um engano, então dance sem "caraminholas". Elas vão te atrapalhar , vão fazer você ser econômica. Seja você mesma e com certeza as pessoas vão gostar e você mais ainda.

Agradeço a possibilidade de poder dançar, amo estar dançando, sou plenamente feliz enquanto danço. É claro que às vezes sou assaltada pelas "caraminholas" que citei acima, mas estou cada vez mais aprendendo a lidar com elas. Quando comecei a viajar para São Paulo, gastando quase tudo que conseguia economizar, fui muito criticada (eu também me criticava), mas mesmo assim eu continuava indo em busca de poder dançar como as mulheres que eu assistia na Khan El Khalili.

Lá elegi algumas:

Eu queria a sua dramaticidade, sua força, sua delicadeza e entrega, ela é a combinação perfeita de água e fogo (que eu sei, são opostos) mas Lulu é assim, e isto é fascinante. Lulu é a bailarina completa!!! Eu a amo profundamente por ter começado toda esta história, comecei com ela. Mesmo antes dela me conhecer eu a via todos os dias na minha casa pelo vídeo e a estudava, até que resolvi viajar mais de 2000 km para ir ter com ela pessoalmente e quando a vi foi um vexame...mas não vou contar tudo, a história é longa.
Eu queria aquele controle, a sua aura de rainha. Ela me ensinou a ser profissional e a tocar snujs.
Eu queria aquele carisma, aquele charme, aquele ficar a vontade, queria tal qual como ela colocar a mulher para brincar de ser menina. Ela me ensinou a brincar.
Eu queria aquela profundidade insondável, queria ouvir o som das minhas asas, assim como eu ouvia o som das dela. Asas de borboleta, de anjo. Ela me ensinou a respirar.
Eu queria aquela capacidade de absorção, sempre que via Soraia ela estava diferente, melhor. Queria a sua malicia, sua malandragem (no bom sentido), não posso deixar de citar que queria seu tremido.
Durante muito tempo meu aprendizado foi desenvolvido através de aulas particulares, até que Lulu me aconselhou a também fazer aulas em grupo. Foi assim que tive várias aulas com Shahar. Suas aulas são uma alegria, ela consegue passar muita informação de forma descontraída, sempre admirei a forma que ela conduz suas aulas e aprendi muito com as aulas que tive com ela.
As aulas com ela também foram muito especiais, Jade é senhora de si, e tem uma leitura musical muito especial.
Com ela aprendi a ter disciplina,suas aulas foram também muito importantes para mim.

Comecei a dar aulas em Araguaína, tudo que aprendia ia passando, assim não esquecia e não perdia o que tinha aprendido. Eu anotava tudo que era passado ( ótimo habito se ao chegar em casa você repassar novamente tudo que aprendeu, caso contrário fica esquecido). Pegar as anotações um mês depois é complicado, geralmente ficamos confusas com tanto conteúdo, mas se no mesmo dia ou no dia seguinte a gente repassa o que escreveu é mais fácil gravar. Se você também ensina o que aprendeu, aí não perde quase nada. Ganhamos todas com isso.

Certa vez depois de ter tido aulas particulares com Lulu entrei em crise. Tanto esforço e continuava a sentir que faltava leveza, graciosidade e expressão. Faltava me sentir bem. Nesse dia comecei a duvidar ser possível dançar da forma que as bailarinas da KK dançavam. Eu me lembro que disse para Lulu que eu  não fazia parte daquele mundo e que todo aquele esforço não me levaria a lugar nenhum, que estava bom o que eu já aprendera que não era possível melhorar. Eu estava desistindo.

Nesse dia ganhei um grande presente de Lulu. Ela olhou no fundo dos meus olhos cheios de lágrimas, pegou nas minhas mãos e me aconselhou a fazer terapia. Foi o melhor conselho que recebi e segui. Lulu me contou a estória do patinho feio, foi definitivo para mim e comecei a aceitar a possibilidade de ser um cisne que pensava ser um patinho.

Divido esta história com vocês, porque sei que muitas se sentem assim. Acreditar, estudar, se esforçar, ter coragem e ética é igual a sucesso. Tem sempre alguém na sua frente, tem sempre alguém atrás. Da mesma forma que você quer a atenção de quem está a sua frente, dê atenção a quem está atrás. Para mim a dança é minha companheira e melhor amiga. Sei que esta relação será por toda minha existência. Até quando não puder mais dançar fisicamente, minha alma continuara dançando porque minha alma é uma alma dançarina.

 

 

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